i) Tsura e o povo escolhido

LINK, Rogério Sávio. Tsura e o povo escolhido: uma reflexão a partir do cotidiano Apurinã. In:  SINNER, Rudolf von; REBLIN, Iuri Andréas. Vida Cotidiana: Lugar de Intercâmbio ou de nova colonização entre o Norte e o Sul? XIV Seminário Internacional do Programa de Diálogo Norte-Sul. São Leopoldo: Faculdades EST, 2010. p. 88-92.

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Tsura e o Povo Escolhido: Uma Reflexão a Partir do Cotidiano Apurinã

Rogério Sávio Link[1]

Resumo

O presente artigo reflete, a partir do cotidiano, o trabalho que o COMIN vem realizando entre o povo Apurinã. O estudo parte de histórias narradas no dia-a-dia e que apresentam a realidade desse povo como uma realidade ambígua ao mesmo tempo em que estimulam um compromisso social com o coletivo.

Palavras-Chave: cotidiano, indígena, indigenismo, Apurinã.

Situando a reflexão

Esta reflexão acerca do cotidiano apurinã tem seu motor no trabalho que venho realizando entre esse povo. Em agosto de 2008, fui contratado pelo Conselho de Missão entre Índios (COMIN) para assumir um projeto de assessoria aos povos indígenas do Acre e Sul do Amazonas. Como objetivo principal, o programa do projeto visa contribuir na melhoria da qualidade de vida dos povos indígenas da região, especialmente do povo Apurinã de Boca do Acre e de Pauini (Amazonas), fortalecendo e valorizando a cultura e a organização tradicional, bem como promovendo ações que contemplem melhorias na educação, saúde e etno-sustentabilidade. O foco principal, no entanto, está voltado para a educação indígena, ou seja, tem como objetivo assessorar o desenvolvimento de uma educação diferenciada e de qualidade[2].

Nesse sentido, o projeto está assentado na revitalização da língua e da cultura apurinã. Essa linha de ação – assim como também o próprio projeto em si – foi instituída por iniciativa das lideranças apurinã que conheciam o trabalho do COMIN e que pediram para essa organização que mantivesse tal projeto como forma de auxiliar o povo Apurinã na sua revitalização linguística e cultural.

Estas linhas, portanto, têm o objetivo de refletir a prática desse projeto a partir das relações estabelecidas no dia-a-dia. Como metodologia de pesquisa, o cotidiano, para mim, tem importância por causa de sua dimensão política, ou seja, a importância de conjugar o particular com o geral, o privado com o público, o local com o nacional ou com o internacional. O cotidiano é o lugar onde se produzem e reproduzem os valores individuais, familiares e sociais (éticos, morais, culturais, políticos); o cotidiano é o espaço, por excelência, no qual são vivenciadas as ideologias de “dominação” e também de “emancipação”[3]. Em outras palavras, é no cotidiano das pessoas que são geradas, discutidas e implementadas as idéias. Esse espaço é permeado pelos diferentes interesses em confronto, sejam eles individuais ou coletivos. É ali que as alianças e as desavenças são estabelecidas e desenvolvidas. É ali que o Projeto de Assessoria tem a intenção de intervir como parceiro dos Apurinã no processo de revitalização de sua língua e cultura.

Tsura e o povo escolhido

Minha reflexão parte de um trecho da teogonia apurinã. A história de Tsura, o herói-deus criador, é narrada e vivenciada em diversos momentos da vida diária por diferentes atores. Até o presente não ouvi a história contada do “princípio ao fim”. No entanto, tenho a impressão de que isso não seria uma prática comum, pois se trata de um conjunto de histórias que conformam a cosmologia apurinã e que podem ser acionadas individualmente em diferentes momentos. As histórias também não são sempre contadas com princípio, meio e fim. Por vezes, somente a menção do fato ou uma passagem já serve para contextualizar todo o universo da história, visto que ela é compartilhada pelo grupo. As histórias, nesse sentido, ganham coerência, vida e sentido na sua repetição constante. Ouvir uma história apenas uma única vez não significa conhecê-la. Para se conhecer, deve-se ter escutado várias vezes, pois cada vez que se conta é apenas uma abordagem parcial do enredo. Daí também residiria a dificuldade de registrar as histórias em um papel; tal tarefa é questionada, pois as histórias escritas sempre vão parecer, aos olhos de quem as conhece, como superficiais.

Uma história tem marcado a minha vivência com o povo Apurinã pela sua recorrência. Nenhuma outra história foi tão repetida em minha presença. Não vamos transcrevê-la aqui seguindo uma das narrativas; mas sim fazer uma contextualização a partir das diferentes narrativas que temos ouvido. Segue, pois, essa contextualização:

Ao criar os seres humanos (Pupỹkary[4]), Tsura teria feito primeiramente o povo Apurinã, depois os demais povos, inclusive os cariú[5]. Por ser o primeiro e em tudo privilegiado por Tsura, o povo Apurinã foi criado para ser o dominador, para estar no lugar do cariú. Assim, quando Tsura dispôs os armamentos para escolha dos povos, os Apurinã, mesmo sendo os primeiros, escolheram o arco e a flecha enquanto os cariú escolheram a espingarda. Quando Tsura dispôs o motor ou o remo, os Apurinã escolheram o remo. Em praticamente todas as narrativas, pode-se perceber essa “incapacidade”, “falta de visão” ou erro grotesco dos kiumãne (sábios, ancestrais). Ao final da história, os narradores sempre concluem apontando para o presente. Eles afirmam que é por isso que os Apurinã sempre “dão pra trás”, que nada funcional entre eles ou que eles são desunidos.

Na primeira vez que ouvi essa história, fui tentado a interpretar como uma baixa auto-estima do povo Apurinã que se sentiria inferior aos demais povos, principalmente em relação aos cariú que são reconhecidos como aqueles que possuem uma tecnologia muito mais avançada. Perguntava-me, então, se essa narrativa “pessimista” não teria surgido por ocasião dos contados e da subjugação dos Apurinã ao “sistema cariú”? Inclusive porque o povo Apurinã era tido como guerreiro e tem um histórico de dominação em relação aos outros povos da região. Essa índole guerreira também é aplicada para dentro do próprio grupo, pois mantinham constantes guerras entre si[6]. Subjugados por outro povo em vista das condições bélicas superiores, poderiam ter justificado essa nova condição reinterpretando a história que originalmente afirmaria o povo Apurinã como o escolhido por Tsura e, portanto, como o privilegiado, como o dominador. Essa interpretação me parecia a mais correta, pois a antropologia afirma que todos os povos tendem a ser etnocêntricos.

Como essa história estava sendo repetida inúmeras vezes e sempre direcionada para mim, suspeitei de que ela pudesse estar sendo utilizada para construção de realidades e alianças e não como uma história de baixa auto-estima. A suspeita aumentou quando ouvi a história de kairiku e de Iputuxity. Essas são terras originárias, sagradas, nas quais todos e todas as coisas são imortais. Os Apurinã se consideram como um povo em transição entre esses dois mundos de perfeição. Eles teriam saído do Kairiku e deveriam chegar ao Iputuxity. Nas narrativas, os Apurinã afirmam que iniciaram a marcha seguindo outro povo, os Otsamanery, que teriam completado a viagem até Iputuxity, enquanto os Apurinã teriam ficado na terra do meio, a terra na qual as coisas definham e morrem[7]. Os apurinã ficaram porque se distraíram com as frutas e com a beleza do lugar; deixaram-se levar pelas “futilidades” e perderam de vista as coisas eternas e essenciais. Enquanto eles se distraiam, o caminho entre os dois mundos foi encoberto.

Essa história revela que a auto-observação a cerca do povo Apurinã como um povo “atrapalhado”, ou “descuidado” com o legado de Tsura, é mais antiga do que a época do contato. Desvela uma compreensão de mundo e uma ética permeada pelas ambiguidades. Embora tenham o potencial de fazerem as coisas certas, as escolhas equivocadas do dia-a-dia podem levar ao erro, ao desastre. Em outras palavras, essa cosmovisão representa a condição humana, representa a realidade como ela é, ou seja, que as pessoas e os sistemas são falhos. No entanto, ela também quer apontar para o compromisso. A história é repetida na tentativa de se evitar o erro, de mobilizar as pessoas em função de alguma idéia, de algum objetivo. O discurso é utilizado para indicar a necessidade de união e de cooperação.

A palavra que os Apurinã utilizam para nomear suas lideranças atuais é Kiumãnety que é derivada de kiumãne, aquelas lideranças antigas que, embora muito respeitadas pela sua ancestralidade, falharam em suas escolhas para com o povo. Representa, portanto, uma continuidade entre as lideranças antigas que se equivocaram e a esperança de que as lideranças novas não vêem a incorrer no mesmo erro. Quando a liderança é quem está narrando aos outros a história, representa a necessidade do povo dar apoio e seguir a liderança nas suas decisões. Direcionada para minha pessoa, essa história tem a intenção de afirmar a aliança estabelecida entre os Apurinã e o COMIN, num compromisso claro de que eles sabem das possibilidades de falhas e fracassos, mas que estão dispostos a dar o máximo de si – e também pedir o máximo da entidade parceira – para que os projetos dêem certo.

Assim, de forma conclusiva, podemos dizer que as histórias que aparentemente apresentam o fracasso ou uma suposta baixo auto-estima não querem afirmar a inferioridade Apurinã em relação aos outros povos, as outras culturas. Quando elas são acionadas, querem justamente dar esperança e afirmar aos ouvintes que o povo Apurinã é um povo eleito e que com cooperação e dedicação para “fazer a coisa certa” eles vão triunfar em seus projetos. Elas têm, portanto, a intenção de comprometer os ouvintes com os projetos coletivos do povo Apurinã.


[1] Doutor em Teologia e História pelo PPG da Faculdades EST.

[2] O povo Apurinã faz parte da família lingüística Aruak e autodenomina-se Pupỹkary (aportuguesando soa mais ou menos assim: pupingari). Não existem dados consistentes sobre a população, mas gira em torno de 4 mil pessoas. Eles dividem-se em dois troncos: Miutymãnety e Xuapurynyry. A linhagem é passada de pai para os filhos e o casamento correto ocorre entre esses dois troncos. Cada grupo tem suas restrições alimentares próprias: Miutymãnety não come meriti (caititu), kapixi (quati) e kitsũpy (sarapó, uma espécie de peixe); Xuapurynyry não come iũku (nambu galinha), tsãkary (nambu azul), maiũpyra (nambu encantado), pathãaryky (nambu relógio) e Makukua (macucau).

[3] RAUBER, Isabel. Sujetos políticos: Rumbos estratégicos y tareas actuales de los movimientos sociales y políticos. Santo Domingo: Passado e Presente XXI, 2006. p. 45, 93s.

[4] Atualmente este vocábulo está sendo reservado para designar mais exclusivamente o povo Apurinã. As pessoas com mais idade e que dominam a língua, no entanto, também o utilizam para designar todas as pessoas indígenas ou não indígenas.

[5] Cariú é uma palavra que vem do tupi e designa o não-indígena. Confesso que a utilizo com regularidade, pois tem o poder aglutinador para referenciar toda a sociedade brasileira não-indígena.

[6] Cf. LINK, Rogério Sávio. Religiosidades e Religiões na Construção Identitária Apurinã. In: I Seminário Iternacional de Culturas e Desenvolvimento e V Seminário Catarinense de Ensino Religioso. Blumenau : FURB, 2009. O texto pode ser acessado em < https://linkrogerio.wordpress.com&gt;. Cf. também. KROEMER, Gunter. Cuxiuara, o Purus dos indígenas: Ensaio etno-histórico e etnográfico sobre os índios do Médio Purus. São Paulo: Loyola, 1985. p. 106-120.

[7] Cf. SCHIEL, Juliana. Tronco Velho: Histórias apurinã. Tese de doutoramento. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2004. p. 56, 62, 85.


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