Fazendo Cerâmica: auto-afirmação linguística e cultural

Nos últimos anos, o povo indígena Apurinã está num esforço constante em vistas de sua revitalização linguística e cultural. Como uma forma de auxiliar nesse esforço, o Conselho de Missão entre Índios (COMIN) tem desenvolvido ações pontuais como nos dias 9 e 10 de junho de 2010, quando foi realizada uma oficina de incentivo à manufatura de utensílios em cerâmica utilizando técnicas tradicionais.

O foco principal foi apoiar as pessoas que ainda confeccionam esses utensílios e buscar incentivar o interesse de outras para que o conhecimento cultural adquirido imemorialmente não se perca em vistas do intenso contato. Tradicionalmente, a confecção de cerâmica entre os Apurinã é domínio do universo feminino. Os homens, nesse sentido, podem ser requeridos para auxiliar em determinados momentos, como na busca de material e no cozimento das peças.

Um segundo foco foi incentivar o uso doméstico e comercial dos utensílios, em vistas da sustentabilidade. Assim, o povo Apurinã poderia voltar a utilizar essas cerâmicas no seu dia-a-dia. A cerâmica tradicional tem qualidade muito superior aos produtos industrializados, é melhor para a saúde e diminui a dependência. No entanto, ao longo de muitos anos, ela foi estigmatizada e, em decorrência, muitos indígena não querem utilizá-la com receio de que sejam identificados como atrasados ou como “caboclos”, como se diz no interior do Amazonas. Assim, a valorização do uso auxilia o povo Apurinã a diminuir sua dependência dos utensílios industrializados, ao mesmo tempo em que possibilita uma alternativa econômica. Se esses utensílios foram estigmatizados ao longo da história, hoje já experimentam valorização no mercado regional.

A oficina nasceu a partir de conversas ao longo do semestre com pessoas interessadas. Uma pessoa que se destaca nessa arte na Aldeia Camicuã, em Boca do Acre, é Leia Carlos dos Santos Apurinã (Kathuna). Nesse sentido, ela assumiu o compromisso de orientar e fazer os preparativos, visto que o processo de fabricação de cerâmica tradicional leva muitos dias. Primeiro, é necessário buscar o material, depois prepará-lo. Em seguida, é necessário manufaturar em partes de modo que o barro vá secando aos poucos. Quando o barro foi moldado na sua forma final, é necessário deixar descansar à sombra durante quase um mês, para somente daí proceder ao cozimento da peça. Para que fosse possível visualizar todos os momentos, Leia já havia preparado peças em todos os estágios e também construído um local específico para o trabalho.

Ao mesmo tempo em que as diferentes etapas do prepara das cerâmicas foram experimentadas durante a oficina, também foi sendo incentivado o resgate do conhecimento linguístico a cerca de todo o preparo e das peças finais. Dessa forma, o que segue é uma amostra desse conhecimento.

Kerysawaky atha kama tarewataku (pitety, musãi, takatary, kupite, yãtatxi, mũthuãna, mũkuruãnu), atha aparyku karapanaty, apaka katxary atha apaku. Ipusu amaputxũary katxary. Akuketary katxary karapanaty pani katy. Iuasaa akama tarewataku. Ipusu atuku, xãmina amatxirata, ipusu atha arĩkataryku, ipusu atha utikaryku. Ateeneka atha kuriwata.

Quando nós fazemos cerâmica (prato ou panela, vaso, forma de beiju, camburão para vinho, vaso para tomar vinho, pote para colocar água ou farinha, pote para colocar água ou farinha sem pescoço), nós buscamos caripé, e também buscamos barro. Depois nós limpamos o barro. Misturamos o barro com cinza do caripé. Então nós fazemos cerâmica. Depois disso, nós buscamos lenha, depois nós sapecamos, depois nós queimamos. Então nós passamos breu.

Rogério Sávio Link

5 Respostas to “Fazendo Cerâmica: auto-afirmação linguística e cultural”

  1. Ivan Seibel Says:

    Bom dia, Rogério.

    Estou concluindo a minha Tese sobre os Pomerânos e ficaria muito grato em poder receber seus comentários sobre o trabalho, já que este tem muito em comum com a tua tese sobre esta etnia em Rondônia.
    Para aonde posso enviar o arquivo?

    Com um abraço

    Ivan Seibel

    PS.: No final do meu texto abordei a questão cerâmica artesanal para os pomerânios. É uma oportunidade a ser explorada.

  2. jandira Keppi Says:

    Bom dia Rogerio,
    as ceramicas do povo Apurinã são muito boas, bonitas e bem feitas. Ainda temos umas quatro tigelas Apurinã, que usamos no nosso dia-a- dia na cozinha, principalmente em assados no forno. O sabor é outro!
    BOm trabalho!
    jandira

  3. Tania Ferreira Says:

    Oi Rogerio,

    belo trabalho o seu!
    estou te devendo a foto feita por mim em 1990, de uma mulher fazendo uma panela, numa aldeia Apurinã de Pauini.
    Vou decobrir onde esta a foto e te envio.
    Um abraço
    Tania

  4. linkrogerio Says:

    É mesmo, por isso estou incentivando eles para que usem e vendam. Nos últimos anos, eles meio que abandonaram a fabricação. É um conhecimento que eles não podem perder assim e que inclusive traz um retorno financeiro direto. Abraços
    Rogério Link

  5. linkrogerio Says:

    Tania, vou ficar no aguardo. Estou curioso para comparar. Sabe, achei uma coisa muito bonita mesmo como eles fazem do barro um instrumento tão bonito quanto uma panela ou um pote. Uma coisa é saber que é possível fazer. Outra coisa é ver fazendo! Abraços amiga!
    Rogério Link

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