VI Encontro Continental de Teologia Índia: Entre pupusas e tamales

Entre os dias 30 de novembro a 05 de dezembro de 2009 estiveram reunidos em torno de 220 indígenas de todos os países do Continente Americano na cidade de Berlin, província de Usulután em El Sanvador, para o VI Encontro Continental de Teologia Índia com a temática Mobilidade/Migração Desafio e Esperança para os Povos Indígenas. O encontro foi coordenado pela AELAPI (Articulação Ecumênica Latino Americana de Pastoral Indígena) e contou com o apoio das pastorais indígenas da Igreja Católica e de igrejas evangélicas desses países. No caso das igrejas evangélicas, houve a representação e apoio do CMI. O Conselho de Missão entre Indígenas (COMIN) fez-se presente através de três representantes, a saber, Cledes Markus, Rogério Sávio Link e Sara Cristiane Karigká Sales. Esteve junto com a comitiva do COMIN Roberto Ervino Zwetsch, secretário executivo do CETELA (Comunidade de Educação Teológica Ecumênica Latino-Americana).

Localizada no cume de uma montanha, de clima agradável, a cidade de Berlin acolheu os participantes com muito amor! Praticamente toda a cidade se mobilizou para o evento. Inclusive também foram mobilizadas pessoas de outras cidades circunvizinhas. A maior parte dos participantes foi alojada nas casas dos “berlienses”, o que possibilitou conhecer um pouco a realidade local e compartir momentos à mesa. Os diferentes tipos de pupusas (prato típico em El Salvador, feito a partir de uma massa de milho ou arroz e recheada com queijo, feijão ou loroco, um vegetal local muito saboroso) e tamales (pamonha) fizeram a alegria dos cafés da manhã, acompanhados sempre por um chocolate quente artesanal. Esse tipo de comida, herança dos povos indígenas da região, demonstra quanto nossos países estão permeados pelas culturas pré-colombianas; é a cultura indígena sobrevivendo e moldando nossas sociedades!

Antecedeu o VI Encontro Continental de Teologia Índia, o I Encontro de Teólogas Indígenas de Abya Yala que se realizou entre os dias 29 e 30 de novembro. Várias mulheres de diversos países da América Latina se reuniram para criar uma rede com o objetivo de pensar a teologia indígena a partir da experiência das mulheres. Nesse sentido, seguindo o espírito do VI Encontro, poder-se-ia falar que as mulheres propõem uma teologia das pupusas e dos tamales, uma teologia feita a partir das práticas das mulheres que estão também associadas à mesa, ao compartir da mesa. Cledes e Sara participaram como representantes do COMIN e das mulheres brasileiras.

Assim como o Encontro das Teólogas, a acolhida do VI Encontro também transcorreu de forma harmoniosa e cheio de celebrações com simbologia e práticas de fé dos diferentes povos indígenas. De forma celebrativa, levantou questões pertinentes para a vida de fé na América Latina. Em primeiro lugar, não se trata de um encontro dos diferentes tipos de teologias indígenas, como o título do encontro poderia dar a entender, mas sim de teologia cristã feita a partir da experiência de vida dos povos indígenas cristãos. O encontro, nesse sentido, reuniu formas diferentes de viver a fé, transformando-se, assim, num grande encontro ecumênico, no qual os indígenas cristãos demonstram aos cristãos não-indígenas que eles podem ser cristãos e continuarem a ser indígenas.

Preocupados justamente em poderem professar a fé cristã e estarem inseridos na sociedade maior sem deixar de serem indígenas, é que o tema sobre migração foi proposto. O país de El Salvador, nesse sentido, não foi escolhido por acaso, mas por ter um alto nível de emigração. Quase metade da população desse país vive no exterior, principalmente Estados Unidos.

Das raízes de suas próprias culturas, os indígenas compartilharam mitos que tematizam a migração como uma forma de ajuda na reflexão intercultural da problemática migratória. No transcorrer do encontro, constatou-se que existem dois tipos básicos de migração: a migração cultural, na qual os povos perdem sua cultura; e a migração territorial, na qual as pessoas deixam suas casas para buscarem melhores condições de vida em outro local. Essas duas formas de migração podem ser forçadas ou pacíficas. Forçada quando o povo é obrigado; pacífica quando o povo assume ele mesmo o destino da migração. O problema maior está, portanto, no “direito de migrar e de não migrar”, como fora constatado durante o encontro. Todos devem ter o direito à livre escolha, pois o fenômeno migratório faz parte da condição humana. Por isso, os participantes do encontro também pediram que as igrejas se comprometam em auxiliar os migrantes no processo migratório e se engajem na lutar contra a criminalização dos migrantes.

Ao final do encontro, os evangélicos presentes, com o apoio explícito do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI), comprometeram-se em organizar o próximo encontro, pois até o momento todos os encontros vinham sendo organizados pelas pastorais da Igreja Católica. A participação protestante na organização limitava-se a auxílios de entidades financiadoras. Nesse sentido, há esperanças de que a organização do encontro traga um maior engajamento das igrejas protestantes em relação à proposta de uma teologia indígena.

Como conclusão do encontro, pode-se dizer que, no processo de colonização, muitos povos perderam suas tradições e agora já não podem recuperar. As igrejas contribuíram muito para dividir os povos indígenas e para acabarem com as suas expressões religiosas. Hoje a pergunta que muitos indígenas fazem é “como vamos reviver nossas religiosidades nos mantendo cristãos”. O mais importante nesse processo talvez seja que as diferentes igrejas compreendam que os indígenas cristãos podem realizar seus rituais ancestrais sem por isso deixarem de serem cristãos. Inclusive os demais cristãos podem aprender das diferentes formas celebrativas. Há que se dizer, entrementes, que a busca por essa revitalização não é cópia do passado, mas uma reconstrução a partir dos novos interesses. É poder continuar comendo pupusas e tamales em terra estranha! Terra que vai deixando de ser estranha na media em que “compartilhamos à mesa”!

Cledes Markus

Rogério Sávio Link

Sara Cristiane Karigká Sales

2 Respostas to “VI Encontro Continental de Teologia Índia: Entre pupusas e tamales”

  1. Helio Teixeira Says:

    Olá, Rogério!
    Muito bom saber de toda essa articulação dos povos indígenas!
    Como bom “Pêlo Duro” fico contente de saber que as tradições ancestrais mais longínquas ainda permanecem entre nós na alimentação, nas palavras, em costumes internalizados, canções e muito mais coisas.
    Um abraço.
    Helio Teixeira.

  2. João azevedo do Nascimento Says:

    Olá caro Rogerio,
    que bom que vc teve a feliz idéia de criar esse blog. Acredita que depois dos doze anos de trablho com povos indígenas e ,mais onze distante desse povo indigena maravilhoso, ler os seus relatorio pela internete tem sido a única forma de me sentir mais perto deles outra vez.
    É isso ai mesmo cara. Manda ver que eu vejo e leio.
    Um grande abraço de seu amigo
    João Azevedo

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