No dia 14 de agosto de 2010 ocorreu, na aldeia Nova Vista, no município de Pauini, uma festa tradicional Apurinã que na língua se chama Pupỹkary Kyynyry. É conhecida localmente como Xingané. Parece que a palavra provem do apurinã xĩkane que significa cantar e é utilizada regionalmente por indígenas e não-indígenas. Xĩkane também é o substantivo para a ave tucano, talvez fazendo referência ao canto dos tucanos no final da tarde. Outra palavra utilizada no âmbito da festa é serena, dançar. Faz referência a uma parte importante da festa na qual os participantes dançam puxados por um cantor. A dança pode ser seguindo em fila indiana com passos diferentes dependendo do ritmo da música ou em duas filas, uma de homens outra de mulheres. As duas filas se posicionam de frente uma para a outra. Dançam para frente e para trás. Não observei se há outros tipos de posicionamentos. As músicas e as danças fazem referência a animais e plantas, como a sucuri e o buriti.
Estiveram presentes diversas famílias Apurinã de diferentes aldeias dos municípios de Boca do Acre e Pauini. Essa festa tradicional é organizada
por ocasião do falecimento de alguém da aldeia, é, portanto, uma festa ritual em memória do falecido. Ao todo, são organizadas três festa. A primeira festa é realizada para “expulsar o morto” da aldeia para que ele não assombre os familiares. A segunda festa, geralmente no ano seguinte, é realizada para “alimentar o morto”. Nessa ocasião, são depositados alimentos no local do sepultamento. A terceira e última festa é a conclusão de todo o processo e “o morto é
encaminhado”, ou seja, “ele agora sabe que morreu” e “não vai mais interferir na vida dos vivos”. A festa do dia 14 era a terceira organizada para despedida de uma liderança. A partir daí, a família poderia seguir sua rotina com as obrigações cumpridas para com o falecido. No entanto, deve ser dito também que essa festa não é somente um ritual fúnebre. É também um momento no qual as pessoas se reencontram, as relações parentescas são reafirmadas e as alianças são construídas.
A alimentação tradicional da festa é peixe com beiju. Também pode ser
carne de caça. Na semana que antecedeu a festa do dia 14, as lideranças que a organizaram convidaram os moradores da aldeia para uma pesca com tingui. Os peixes foram moqueados e o beiju preparado. Os Apurinã afirmam que se deve ter muito alimento para que os convidados não passem necessidade. Também foi preparada caiçuma de mandioca e de banana. A alimentação foi distribuída durante a festa, em intervalos periódicos. A caiçuma é distribuída durante a noite, pois a dança dura a noite toda. Dessa forma, um Apurinã pode afirmar: Erekary pupỹkary kyynyry; atha aserena, axĩkane, anipukutary ximaky eruty kumerykate (A festa apurinã é boa; nós dançamos, cantamos, comemos peixe moqueado com beiju).
Rogério Sávio Link
20 20UTC Agosto 20UTC 2010 ás 12:28
Caro Rogério,
Belo trabalho de relato e fotográfico. Vou pedir para que você seja meu assistente para produção de material teológico para internet. Que tal? Paga-se com moderação, como no caso das bebidas alcoólicas.
Espero encontrá-lo em breve. Mas fica aquela ponta de tristeza por interromper um projeto tão alvissareiro. Tomara que o COMIN consiga encontrar alguém para substituí-lo à altura.
Abraço.
Roberto Z
20 20UTC Agosto 20UTC 2010 ás 14:06
Oi Rogério
Que festa bonita. Muitas vezes acontecimentos como este dão um trabalho danado para serem organizados, mas são a essência da cultura de povos que sempre souberam conviver com em harmonia com o ambiente amazônico. Que pena que nossa cultura aproveite tão pouco destes conhecimentos…
Abração
Nelson
20 20UTC Agosto 20UTC 2010 ás 20:33
Adorei em ler sempre teus textos e os arquivei com muito carinho. Quando li este fiquei feliz, mas ao memso tempo triste. Feliz pelo lindo trabalho de apoio e construção da memória e preservação da história do povo Apurinã. Triste, pelo fato de tão breve teres saído de lá. A vida tem destes cantos e encantos e tantos que faz a vida rolar.
Continue na strilhas da solidariedade e ação cocnreta pelo povo ao qual te apaixonaste. Com carinho e estima,
Elio
20 20UTC Agosto 20UTC 2010 ás 21:03
LIndos seu texto e fotos!
Posso colocar no meu blog também?
Abraço,
Cláudio
20 20UTC Agosto 20UTC 2010 ás 21:29
Claro. É pra divulgar os Apurinã. Abraços.
20 20UTC Agosto 20UTC 2010 ás 21:57
Querido Rogério:
Gracias por este bello regalo de la fiesta de los Apurina, es un milagro poder acceder hoy a esa información pues la Internet casi siempre es lenta para nosotros y complicado abrir otros lados. Disfruté de las explicaciones acerca de los ritos fúnebres de ellos, muy interesante.
Me parece que has hecho tu contribución y que aunque el tiempo fue corto fue fructífero, abriste puertas para que otros también lleguen y contribuyan. Deseo muchas bendiciones para tu regreso al Sur y a tu Nivia amada.
un gran abrazo,
Marianela
21 21UTC Agosto 21UTC 2010 ás 11:19
Oi, Rogério,
Muito linda a experiência que vc relata. Imagino quão significativo deve ter sido esse tempo na vida de vcs!
Um grande abraço pra ti e pra Nívia,
Mary
1 01UTC Setembro 01UTC 2010 ás 12:33
Querido Rogério,
Sei do quanto foi desafiante para vcs, esse trabalho aqui no Estado do Acre. Agradeço por ter nos agraciado com essas informações, tão importantes, da história do povo brasileiro.
Fiquei maravilhada em conhecer essa forma do povo Apurinã lidar com a morte dos seus entes queridos.
Muitos abraços e beijos para você e Nívea.
Neli
19 19UTC Julho 19UTC 2011 ás 13:29
ola Rogerio! Gostaria de saber como seria pronuncia Pupỹkary Kyynyry e qual o papel do paje nesta festa .obrigado!!
21 21UTC Julho 21UTC 2011 ás 11:48
Yrio, aportuguesando pupỹkary soa mais ou menos assim: pupingari. Kyynyry, por sua vez: kiiniri. No entanto, usa-se y, pois tem um som como ü (entre i e u). O u também não é bem u (fica entre u e o, portanto u e o são representados sempre por u). A sílaba tônica sempre é a penúltima sílaba.
Bom, o papel do pajé é central, pois é ele quem conduz o ritual. É ele quem coordena a dança e a cantoria. Espero que tenha ajudado!